segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nossos olhares

Teu olhar, meu olhar, são dois espelhos
Que traduzem os sentimentos d’alma,
São dois castiçais ornando os sonhos,
Que sonhamos nós dois em noites calmas

Teu olhar, meu olhar faróis luzentes,
Das chamas vívidas do coração
São dois pássaros voando alados
Lado a lado na mesma imensidão.

Teu olhar, meu olhar, quanta magia!
Quando se confrontam em uma prova,
Um fala de amor o outro de poesia,

Teu olhar, meu olhar, doce inspiração
Dois poemas de amor, duas trovas
Rimando juntas na mesma oração.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Sonho de Beatriz


Representava no palco, bem contente
O mundo inteiro, no “Sonho de Beatriz”
Percorria países, ilhas, continentes,
Falava tudo de um jeito bem feliz.

Geografia, era a matéria que amava,
Nela eu viajava em sonhos colossais.
Horas de trem, navio, horas eu voava
Pelos céus diferentes dos demais.

Cada país tem muito de singular.
Usos e costumes, músicas e danças,
Rios, florestas, animais, filosofia.

Na platéia, alguém ficava a me olhar
Dois olhos verdes, olhos de criança
Que a vida nos uniu desde este dia.
Rio, 25.08.2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Carnaval

Carne e aval
Carne e cor
Cor de ouro,
De ouro escarlate,
Mais carne que cor,

Carnaval
Carne sem aval.
Sem avalista das curvas
Sem seguros sensuais,

Sem fiança de encontros.

Mais epiderme que roupa
Nu artístico que rouba
Das retinas quase loucas
Reviravoltas totais.

No corpo que requebra
Em movimentos - sem igual
Serpenteia em serpentina
Coberta de purpurina
Desnuda-se colossal
O sol queima a epiderme
Tatuando toda a pele
De sapoti e coral.

Das fantasias ao enredo,
Todos são reis e rainhas.
O asfalto e a favela
Se fundem na passarela
Na mágica do carnaval.

Carnaval, carne e cor
Do bronze ao escarlate
Do jambo ao dourado
Nas peles a igualdade.
O mesmo luxo e esplendor.
                   Jailda Galvão Aires (Rio, 2010)

Amar sem ser amada

                                                      

Amar sem ser amada...
É chorar nas noites frias em plena solidão.
É sonhar todos os sonhos
É querer tudo e não ter nada.

Amar sem ser amada...
É ver o barco distanciar-se em todo porto,
Sem um adeus, sem certeza de partida,
Sem promessa de chegada

Amar sem ser amada...
É dar-se sem reservas, sem nada pedir.
É anestesiar a dor da indiferença
Sorvendo gota a gota a seiva da ilusão

É contentar-se com risos descontentes.
Abraçar rosas num abraço inocente
Sem sentir que elas farpeiam o coração.
É postar-se em silêncio, sem nada exigir
Subestimar o próprio sofrimento
Lutando com um medo inconsciente
De perder aquilo que sabe que não tem.

Amar sem ser amada...
É colher flores murchas em plena primavera
Reanimar pérolas, mortas, desbotadas
Despojar-se de si mesmo, enfraquecida
Contentando-se com restos de quimeras.

Amar sem se amada...
É camuflar no riso a dor contida
Cair na armadilha dos que passam a vida.
Buscando equacionar o indecifrável.
Mesmo sabendo que o amor é fera indomável.
                      Outubro de 1968 (Jailda)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

COMPONDO

Se eu fosse agora escrever um poema
Não sei se colheria mil rosas vermelhas
Se contaria punhados de estrelas
Ou se apanharia borboletas azuis.

Se eu fosse agora escrever um poema
Não sei se fitaria o céu quase anil
Se escutaria o rumor das procelas
Ou cismaria sozinha ao luar

Se eu fosse agora escrever um poema
Cheio de vida, de versos, de cor
Um poema perfeito, completo
Que abraçasse por inteiro o universo
E se esparramasse em todos os corações.

Ah! Se eu fosse agora escrever um poema
Harmonioso, sublime e o maior
Versejaria numa palavra apenas: AMOR
(1973)

SAUDADE





Diz saudade por que é que a gente
Alimenta tanto este teu sofrer
Mesmo sabendo que o tempo ido
Não poderá jamais retroceder

Saudade um cutucar de espinhos
Com mel na ponta pra ludibriar
A gente bebe, tem sabor de vinho
Que só faz mesmo nos embriagar


Saudade um cair de folhas mortas
Se esparramando soltas pelo chão
Emana seiva que alimenta a terra.
A lembrança, aduba o coração

Saudade, dor doída que consola
Mesmo fazendo o coração sofrer
Mas quem na vida não pediu a ela
Uma esmola pra sobreviver
Julho de 2007

Busca


 
Que busco eu ?
 Amor?
Venturas?
Aventuras?
Que busco eu?
O olhar que não veio?
O sorriso que secou?
O beijo que não foi meu?
Que busco eu?
Não sei!
Quem sabe?
Ninguém?
Nem eu.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Desencontros












Há uma saudade magoada pela ausência
De uma espera feliz que não se fez chegar
Rostos em sonhos de alegrias soltas
Momentos breves de um sutil passar
Aquela promessa de no outro dia
No mesmo jardim, no mesmo lugar
O encontro feliz em troca de poesias
*
Findou a noite como todas findam
O mesmo sol no céu se fez brilhar
Naquela noite não houve mais encontros
Sonhos desfeitos em ninhos de solidão
Em cada olhar um eco que dizia:
- Com certeza ela se esqueceu...
- Ah! Se ele foi, não me perdoará.
*
Como a vida destrói castelos de areia...
O mesmo destino que nos fez reencontrar
Saiu sutilmente, fugiu de mansinho
Tornando paralelos os nossos caminhos
Alargando a estrada que nos fez cruzar
Agosto de 1969

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sonhos idos

Tentei, quis ser e não fui
E não sendo
acreditei que não sonhei como devia

Fui poeta, artista
Cantora, pianista
Conheci o mundo inteiro
e o mundo me consagrou.
Acreditei que cantava
Encarei plateias, fui aplaudida.
Libertei na voz a alma escondida
E desperta ainda, continuei a cantar.

Fui artista, roteirista,
Desempenhei inúmeros papeis
Em peças que eu mesma escrevi
E que não sendo, de fato não as vivi

Fui poeta, versista
De rimas pobres, quebradas
Quis dizer tudo e não disse nada
Estéreis minhas doces inspirações

Quis ser, não fui e nem sou
Sou apenas mais uma que sonhou viver
E não viveu o que de fato sonhou


De “ista” em “ista
Foi grande a minha lista
E pequena minha lucidez


Para que aterrissei?
Não sei.
Não me encontrei aqui
Joguei, julguei, representei

E sem morrer, morri.