terça-feira, 15 de abril de 2014

"DEUS ESTÁ MORTO"

 
Deus está morto...
Ainda ontem vi passar mais um caixão.
Deus morre milhões de vezes a cada minuto de vida
Em cada prece que cala
Em cada corpo que tomba
Em cada coração em ruína.


Deus está morto...
O Deus que os homens fizeram e acreditaram
O Deus esperança,
O Deus promessa,
Milagre!
Cura!
O Deus que salvaria o mundo!


Deus está morto...
Ainda hoje vi passar mais um caixão.
Um corpo tombou no abismo do vigésimo andar.
Mais uma granada lavou a terra de poeira e sangue.
Maria matou seu filho que não teve pai,
Nem alimento do seu próprio corpo.
Mais uma  favela tremeu e Deus morreu,
Em duas mil vidas.


Deus está morto...
Foi enterrado nas lágrimas que não caem mais.
No sorriso amargo da criança faminta
Em cada esperança que se fez perdida.
Em cada prece que não foi atendida.

Deus, agora mesmo, deve estar morrendo...
Mais uma vez,
Mil vezes,
Um milhão de vezes...
Muitas vezes mais.
Amanhã... o “Deus dos homens” sairá em todos os jornais.

       Itabuna-Ba. FAFI – Prova de teodiceia
             Em 22/11/1973. Jailda Galvão Aires.

Ressalva: Refiro-me ao Deus que os homens criaram. Creio plenamente no Deus que criou os homens.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Nem tudo que parece ser é.

NOVELA


 
A rainha da noite
No vestido azul do céu
Mirava o perfil de Cleópatra
Nas águas da Terra que eram espelhos.

 

Os pássaros cantavam docemente.
Enquanto o vento beijava a cabeleira das árvores
As águas, no seu partir eterno,
Deixavam no chão o último beijo.

 
        A natureza era um senário de luz,
Na apoteose de duas vidas.

 
        Ninguém desconfiava
Que os protagonistas desta história de amor
Éramos eu e você vivendo o mais belo conto.

              Coaraci-Ba. 1968/Jailda Galvão.

domingo, 13 de abril de 2014

DEIXA-ME SONHAR

    
Por mais que eu lute não consigo dormir.
O sono, eterno fugitivo, não vem.
Ouço as pulsações do meu peito
Como se fossem teus passos
E neste caminhar espreito
Sinto que rondas o meu quarto.

 Levanto-me, em vão te procuro.
Estranho vazio se apodera de mim.
Sinto falta dos meus sonhos
Mas como sonhar sem dormir? 

Sento-me na cama - penso em ti
A solidão austera me invade
Busco refúgio nos meus versos
Mas em cada reverso
Gravado estás
Como nos sonhos,
Na saudade
Nas voltas do meu universo.
Apago a luz
Plasmam imagens de tantas coisas vividas
E te desejo mais que antes
Mesmo sabendo que não houve despedida. 


Vencida pelo cansaço desmaio adormecida
Enquanto vislumbras sorrateiramente. 

A realidade, sem ti, não tem sentido.
Se te tenho por inteiro em meu sonhar
Quero meu ser assim desfalecido
- Nunca mais quero acordar.
         Coaraci-Ba, 11/01/69 Jailda Galvão Aires



sábado, 12 de abril de 2014

SOLIDÃO

       

É triste a solidão...
E eu estou sozinha...
Num silêncio eterno
Sem luz
Sem calor,
Sem voz,
Sem teto. 

É triste a solidão...
E eu estou sozinha...
Ao frio das noites
Sem canções
Sem luar,
Sem amor,
Sem estrelas;
Sem um gesto sutil
De um triste adeus... 

É triste a solidão...
E eu estou sozinha...
Num suplício de dor e desalento
Ao sabor do vento que me gela a alma
Ao triste despertar das horas mortas
Sem espera,
Sem sonhos...
- Sequer um leve  e sussurrante aceno,
De tudo o que passou,
Quando a vida era vida para mim.

       Brejões-Ba. 2/2/68 Jailda  Galvão Aires.
 
 
 





segunda-feira, 7 de abril de 2014

MENTE

    
Mente, não venha com seus impulsos,
Roubar a paz dos meus pensamentos.
Não me arraste com as tuas ondas impetuosas
Levando-me a águas turvas e profundas
Onde mora a dor e o lamento.
Ainda que  tenhas  muitos tentáculos
E potente  ventosas,
Não és mais forte que eu
Que a minha inata verdade
E a minha vontade silenciosa.

Quero estar introjetada, enraizada,
Presente em todas as células
E consciência do meu corpo
Onde não existe espaço
Para o ontem e o amanhã.

O passado está fossilizado
O futuro é um livro sem páginas.
Não me venha com conselhos ou talismãs.
Quero o agora, com seu poder e mágica
Sem antecipações e  sem lembranças.
Sorver cada momento a sua singular beleza.
Como a leveza e a verdade das crianças.

              Jailda Galvão Aires - Rio, 07/04/2014

terça-feira, 1 de abril de 2014

EDSON LUÍS - O HERÓI ESTUDANTE.

  
 

A bala partiu.
Foi rápida, certeira.
- Covarde a mão que lhe apertou o gatilho.
 
O estudante tão moço
Caiu ao chão envolvido numa bandeira de sangue.
 
O sangue desfraldado ao vento
Clama silenciosamente por justiça.
 
        A multidão soluça.
Choram os amigos,
Colegas,
Família,
Desconhecidos.
- Todos se fizeram irmãos.
 
        Chora mãe a perda do filho
Chora a pátria a perda de um forte.
 
        Ali, no Calabouço estudantil,
        Feriram seus colegas
E o assassinaram.
Porque reivindicavam:
Justiça,
Democracia,
Respeito,
Direito de falar e serem ouvido.
 
Mas, a “Perversa Matilha”,
Ladrou alto, feroz,
E na mesquinhez da ignorância e bruta covardia,
Matou mais um filho desarmado.

Morreu nosso colega Edson
Uma bala covarde,
De mãos sem dedos,
E mente teleguiada,
À queima roupa, lhe varou o peito.

 Morreu nosso filho e irmão Edson
Morreu como soldado
E renasceu como O Grande
O Imortal Herói,
- O Herói Estudante!

         Ihéus- Ba. 30/03/1968. Jailda Andrade Galvão.
                      Colégio IME